Mãos no bolso. Olhos no chão. Um silêncio perturbador. Eu era ótima em fazer minutos de silêncio pesarem de forma que não fosse preciso proferir palavras dolorosa. Mas, de alguma forma, eu queria feri-lo desta vez. Queria vê-lo sentir o vazio pressionando seu peito. Pensei em dizer coisa feias, mesmo que não fizesse sentido. Dizer só por dizer. Só pra ferir. E por fraqueza não pude dizer nada além do que meu silêncio permitia.
Fechei meus olhos. Dessa vez não foi para deixar as lágrimas escaparem. Foi para não ver o seu rosto. Ele me causava sensações diversas, fazendo-me perder o foco. Era como uma luz que me cegava e me arrastava para longe de mim mesma.
De repente algo me trouxe de volta. Foi sua voz me puxando do meu abismo secreto para depois atirar-me nele novamente. Olhei em seus olhos. Ele deu de ombros balançando a cabeça como um sinal de reprovação a tudo aquilo. Desviando o olhar deu meia volta. Caminhando a passos largos sem olhar para trás. Sem dizer adeus ou se um dia iria voltar.
Eu quis correr atrás pedir para que não me deixasse. Mas fiquei lá. Imóvel. Muda. Sem acreditar que ele tivera coragem de pular do barco.
Quando dei por mim já era tarde. Anoitecia. O clima parecia ser frio demais para que minha roupas me mantivessem aquecida. Fui para casa com vontade de banho e cama. E, talvez, uma panela de brigadeiro ou qualquer coisa que tapasse o buraco que eu sentia.
Disquei algumas vezes o seu número. Caixa postal, secretária eletrônica. Bati na sua porta. Não fui recebida.
Uma semana. Ontem fez uma semana e nenhum sinal.
Mas hoje pela manhã a campainha tocou, um palpite me dizia que tinha ver com ele. Uma entrega. Flores! Flores? Ele nunca me mandaria flores. Tulipas amarelas. Um envelope. Uma carta:
"Eu sei o que você está pensando nesse momento, minha cara...
Você deve estar imaginado que eu nunca lhe mandaria flores e escreveria uma carta assim. Mas tem um pequeno motivo para tudo isso.
Eu sei que você me procurou. Eu quis vir atrás de você. Se não atendi seu telefonemas nem lhe procurei, foi propositalmente não pois eu queria que você sentisse exatamente o que eu sinto quando você se cala .
Eu queria que você entendesse que eu não estou nesse barco sozinho e que ele não vai para frente se você não remar comigo...
Queria que você soubesse que eu estou ao seu lado o tempo todo e em todas as situações que estão por vir, mas eu queria saber se você tinha coragem de enfrentar o seu orgulho para estar ao meu lado da mesma forma.
Naquele dia em que eu fui embora bastava dar-me sua mão confortadora e eu saberia você ainda estava lá. Bastava agasalhar-me em braços e eu saberia que você ainda se importava. Bastava dizer-me três palavras mágicas e eu ficaria. Sim, eu ficaria até o fim.
E agora você vai se calar novamente?
E agora você vai se calar novamente?
Ps.: Nunca é tarde de mais. Ainda espero por você para remarmos juntos no nosso barco."



